Cotia centro POP: acolhimento com dignidade e respeito aos moradores em situação de rua

Da Redação

Com as baixas temperaturas, a pergunta que vem a cabeça é: onde as pessoas em situação de rua podem encontrar atendimento?

Em Cotia, as pessoas em situação de rua contam com acolhimento realizado pelo Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua – Centro POP, que tem a função de proteger os cidadãos desabrigados.

Instituída em 2014, a unidade instalada na Rua Monsenhor Ladeira, 43, Vila São Francisco, realiza aproximadamente 60 atendimentos mensais. Conforme estabelecido pelas normas de funcionamento, atende de segunda a sexta-feira, no período das 8h às 17h.

São atendidas no Centro POP pessoas adultas e famílias em situação de rua, ou seja, que utilizam lugares públicos e/ou áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente.

O espaço destinado ao atendimento apresenta área específica para o convívio, onde são desenvolvidas atividades que estimulam a solidariedade, o afeto e o respeito. As atividades e a atenção direcionadas no serviço especializado para as pessoas em situação de rua têm como objetivo proporcionar vivências, estimular o alcance da autonomia e o resgate da cidadania, na perspectiva do fortalecimento de vínculos pessoais e/ou familiares, para a construção de novos projetos de vida e o processo gradativo de saída das ruas.

De acordo com o Secretário de Desenvolvimento Social, Luís Ricardo Mastromauro, o Centro POP não se limita a oferta de um local para banho e alimentação. A atividade principal consiste no acolhimento realizado pela equipe multidisciplinar, que elabora um plano de vida para os cidadãos, a fim de apoiá-los.

“Durante o acolhimento realizado pela equipe multidisciplinar, a partir de metas estabelecidas pelos atendidos, damos início aos encaminhamentos para atendimentos em saúde que se façam necessários, documentação e todo o acompanhamento necessário, com o objetivo de reaproximá-los de seus familiares por meio da reinserção social”, define o coordenador Rogério Mendes.

Entre os serviços ofertados estão a disponibilidade do asseio pessoal às oficinas e programas da rede municipal de atendimento. Entre outros, destaque para banho, alimentação, vestuário, local para lavagem e secagem de roupas, espaço para a guarda de pertences, endereço de referência, auxílio para regularização de documentos pessoais, inserção aos programas sociais, atendimento e encaminhamento para outros serviços da rede, como saúde, educação, trabalho, cultura e lazer.

Além das demandas espontâneas atendidas vale ressaltar que durante as abordagens sociais realizadas na cidade, as pessoas são convidadas a frequentar o centro de referência. Em nenhuma hipótese o atendimento pode ser realizado sem a permissão do atendido. Há casos em que as pessoas em situação de rua optam por permanecer nos locais onde pernoitam e, diante desta escolha, são atendidos com cobertor, roupas e apoio para que saiam desta situação de vulnerabilidade. A rotatividade é grande já que muitos estão apenas de passagem pela cidade.

Atendimento multidisciplinar

Com a participação nas oficinas realizadas em parceria com as secretarias municipais e com o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar, os atendidos conseguem retirar documentos, passar em consultas médicas, acompanhamento via CAPS- Centro de Atendimento Psicossocial Álcool e Drogas, entre outros. “Procuramos trabalhar em todas as áreas da vida deles. A saída das ruas é gradativa e requer um trabalho inicial com eles e com familiares também”, afirma a psicóloga Jussara Cianelli.

As oficinas de artesanato ocorrem com frequência e possuem um papel social agregado a coordenação motora. “As oficinas possuem o importante papel de mexer com a auto estima, promover o fortalecimento, manuseio e coordenação motora. Muitos deles tem formação como padeiro, letreiros e com isso a coordenação motora deles melhora. Além disso, tem o trabalho de fortalecimento de vínculos, convivência social porque perderam o contato com familiares, sociedade e ao fazer o trabalho juntos, seja artesanato, horta ou qualquer trabalho lúdico é um incentivo pra eles. Muitos chegam muito tímidos e aos poucos se socializam e é isso que desejamos pra eles, a possibilidade de reinserção social e familiar”, explicou a Assistente Social Joana D’arc.

A reinserção no mercado de trabalho também requer atenção e preparo, como salienta a psicóloga Jussara. “Mesmo quando eles conseguem a retomada ao trabalho é preciso orientar a questão de como lidar novamente com o dinheiro. Se não houver acompanhamento e orientação há um grande risco de recaídas no vício. Trabalhamos o conceito de onde e como gastar o dinheiro e por meio do acompanhamento em saúde nos CAPS trabalhamos a questão da dependência química”.

Acompanhamento familiar

Muitos são os motivos que levam estas pessoas a viver em situação de rua, mas a grande maioria está associada a dependência química, problemas familiares e desgaste da convivência familiar. Pensando nisso, o Centro POP também faz um contato com os familiares dos atendidos no intuito de fortalecer e restabelecer o vínculo. Esse trabalho só pode ser realizado mediante o consentimento da família.

Quando o retorno ao lar ocorre os familiares passam a ser atendidos por outros equipamentos públicos ligadas a municipalidade como os CRAS e CAPS.

A opinião “deles” sobre o Centro POP?

Diante da pergunta sobre o significado do Centro POP na vida de cada um dos atendidos, as respostas refletem o real sentido de acolhimento, dignidade e oportunidade. “É um lugar que me ressuscitou uma porrada de vezes”, diz Jonas Celestino, chamado de “Raul Seixas”.

Espontaneamente Paulo Sérgio, 29 anos, completa: “um lugar que dá vida digna para quem tem um objetivo”. E Paulo ainda ressalta: “aqui somos acolhidos, somos uma família. Todos nos recebem bem e nos tratam bem”. Paulo tem experiências com obras, cultivo de hortaliças e paisagismo. Está cuidando de uma horta nas dependências do Centro POP e afirmou que está a procura de trabalho.

Anilton veio de São Paulo e, entre uma atividade e outra, também gosta de tocar violão. Ademir, 47 anos é um autêntico migrante. É natural de Osasco, já esteve em Cotia em 2014, depois esteve no Paraná, Santa Catarina e está de volta a Cotia. Em suas andanças perdeu alguns dos seus documentos e esta semana conseguiu uma nova via do seu RG.

Carlos Silva, 40 anos, passou pelo Centro POP em fevereiro de 2015 e hoje (16/06) está em atendimento novamente, mas afirmou que está preparado para retornar à sua casa e demonstra emoção ao falar. “Conheci o Centro POP através do “Raul”. Antes, não tinha para onde ir e hoje até me emociono ao falar. É um atendimento maravilhoso que nos fortalece. Todo o apoio que recebi aqui me fortaleceu e vou guardar para sempre no meu coração”.

A maioria dos atendidos são homens, mas, entre as mulheres, vale destacar o caso de uma senhora de 62 anos que já veio de São Paulo e está em Cotia há alguns anos. Atendida pela Secretaria de Desenvolvimento Social, hoje ela está em um abrigo para idosos, em Caucaia do Alto, onde aguarda a liberação de um apartamento pelo Programa Minha Casa Minha Vida.

O usuário dos serviços oferecidos no Centro POP, SCP*, 38 anos, fez uma avaliação sobre o atendimento realizado na unidade de Cotia. “O Centro Pop é muito importante pra mim porque hoje estou como morador de rua e, como não quero ficar nessa situação, encontro aqui possibilidades para reverter essa situação. Posso tomar café da manhã, tomar meu banho, lavar as minhas roupas e participar de algumas atividades, por isso, não preciso ficar na rua aprendendo o que não presta. Ao meio dia tem uma comida maravilhosa, posso ver um pouco de TV, ver esporte e ficar atualizado das notícias. À tarde, posso ficar até às 5 horas, mas nem sempre fico a tarde, porque vou correr atrás dos meus objetivos. O mais importante para mim é a educação e o respeito que eles têm conosco e a ajuda psicológica que eles oferecem.”

Recentemente um dos assistidos conseguiu retomar contato com seus familiares em São Paulo e voltou ao convívio familiar. Um morador de Vargem Grande Paulista, após passar pelo período de separação passou pela situação de rua e em contato com o filho mais velho, voltou ao município de origem.

Abordagem Social

O Centro POP atende pessoas que espontaneamente comparecem em busca dos serviços, casos provenientes de encaminhamentos da rede de atendimento social dos CRAS e CREAS e também realiza o trabalho denominado “Abordagem Social”, com busca ativa das pessoas em situação de rua.

Durante a abordagem social, a equipe faz um trabalho preliminar de identificação das demandas de cada indivíduo ou família e busca a resolução das necessidades imediatas. Para cada busca ativa, o Centro POP promove a inserção na rede de serviços socio-assistenciais e das demais políticas públicas, na perspectiva da garantia de seus direitos. Vale ressaltar que mesmo em situação de rua a Constituição estabelece que o cidadão tem o direito ao livre arbítrio assegurado para optar por aceitar ou não a oferta de serviços disponibilizadas na rede de atendimento.

Na última visita da equipe em Caucaia do Alto, realizada esta semana, seis pessoas foram abordadas. Ao receber cobertores e roupas, agradeceram e pediram que estes itens fossem oferecidos às pessoas que realmente precisam porque eles ainda tinham roupas e cobertores suficientes.

Para ter acesso aos serviços realizados no Centro POP, basta que a pessoa em situação de rua compareça à unidade de forma espontânea ou através de encaminhamento de outros serviços da rede de Assistência Social e das demais políticas públicas setoriais e órgãos do Sistema de Garantia de Direitos.

Casa de Passagem

Para complementar a rede de atendimento e atenção com as pessoas em situação de rua, a Prefeitura está finalizando algumas obras no espaço destinado a implantação da “Casa de Passagem”. Todos os equipamentos para colocá-la em funcionamento já foram adquiridos e resta apenas a finalização do serviço e reparos nas dependências da casa para início dos atendimentos.

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